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Morangos Silvestres (1957) na Suécia

  • Foto do escritor: Fran Mateus
    Fran Mateus
  • há 4 horas
  • 5 min de leitura
Cenas e pôster de "Morangos Silvestres" (1957), um dos melhores filmes de estrada já realizado.
"Morangos Silvestres" é um dos filmes de estrada mais reflexivos que existe (Fotos do filme: Divulgação).

"Morangos Silvestres": um road movie reflexivo

Isak Borg (Victor Sjöström) é um médico e professor de 78 anos de idade, viúvo, solitário por decisão própria e morador de Estocolmo, a capital da Suécia, que está prestes a viajar para Lund, sua cidade natal, para receber o Título Honorário da universidade local, em reconhecimento pelos seus serviços prestados à comunidade e suas realizações profissionais ao longo da carreira. Ele, no entanto, sente-se um impostor e acredita que não mereça tal honraria.


Talvez por isso, tanto na noite que precede a viagem como durante o próprio trajeto, o homem começa a ter sonhos e visões estranhas.


Parece que quero me dizer algo que não quero ouvir acordado. Que estou morto, apesar de vivo.

Por causa do pesadelo durante a noite, em que viu a própria morte, Isak acorda às 3 horas da manhã e decide ir de carro até Lund, e não de avião, como estava planejado. Sabendo disso, a sua nora, Marianne Borg (Ingrid Thulin), que estava passando uns dias em sua casa, pede para ir com ele, pois precisa voltar a Lund e ter uma conversa definitiva com seu marido, Evald Borg (Gunnar Björnstrand).


Ao longo do filme roteirizado e dirigido por Ingmar Bergman, descobriremos às razões que levaram Isak a se tornar o homem isolado que ele reconhece ser e os sentimentos que os demais personagens têm em relação à ele:

  • Tem aqueles que o consideram frio e incapaz de ter sentimentos, que é o caso do seu próprio filho, Evald, e da falecida esposa de Isak, Karin (Gertrud Fridh);

  • Tem os que o respeitam imensamente pelo zelo com que tratou seus pacientes, como Henrik (Max von Sydow, de Hannah e suas Irmãs), o dono do posto de gasolina que se nega a receber o pagamento do médico pelo combustível, dizendo que também sabe fazer gentilezas;

  • Existem aqueles que o tratam com carinho e amizade, como os jovens que pegam carona com ele: Sara (Bibi Andersson), Anders (Folke Sundquist) e Viktor (Björn Bjelfvenstam);

  • E as pessoas com sentimentos ambivalentes, que é o caso tanto da nora de Isak como da Srta. Agda (Jullan Kindahl), a mulher que cuida na casa dele há 40 anos; ambas o acham egoísta, mas sentem uma certa afeição por ele.


Morangos Silvestres (Smultronstället,1957) é um filme de estrada bastante reflexivo, na medida em que o seu personagem principal dirige de volta para as suas origens, para em lugares importantes do seu passado e faz um mea-culpa das suas atitudes. Ele ganhou o Urso de Ouro de Berlim, foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro e faz parte da lista com 45 filmes recomendados pelo Vaticano.


Lugares onde "Morangos Silvestres" foi filmado

Momentos de "Morangos Silvestres" e lugares da Suécia onde ele foi filmado.
Momentos de "Morangos Silvestres" e lugares onde ele foi filmado (Filme: Divulgação; foto da Praça Södermalmstorg, abaixo, à esquerda: Chiamh, obtida no commons.wikimedia).

Sou apaixonada por Morangos Silvestres desde a primeira vez que o vi (sim, já o assisti muitas vezes, inclusive, recentemente, numa sala de cinema). Se você, assim como eu, pensa em visitar os lugares da Suécia por onde Isak, Marianne, Sara, Anders e Viktor passaram, confira, aqui, onde encontrar a maior parte deles.


Gamla Stan, o centro antigo de Estocolmo

Quando tem seu primeiro sonho, em que está sozinho na cidade, sem ideia de tempo, pois os relógios estão sem ponteiro, e vê o seu próprio funeral passar pelas ruas, Isak encontra-se em ruas de Gamla Stan, o centro antigo de Estocolmo, um lugar de ruas estreitas e de paralelepípedos, que data de 1252. Ali podem ser encontrados o Palácio Real, a Catedral de Estocolmo e o Museu Nobel.


Slussen, Estocolmo

Ainda é madrugada e as ruas estão vazias quando o carro de Isak atravessa a área da bela Praça Södermalmstorg, com destaque para os belos prédios do local, preservados até hoje.


As filmagens foram feitas, provavelmente, no topo do Katarinahissen, uma passarela com um elevador panorâmico que liga o bairro de Södermalm, no alto, à parte baixa da cidade.


Nota: perto desses dois locais — Slussen e Gamla Stan — encontram-se dois espaços culturais muito interessantes: o Museu do ABBA (grupo musical que eu, pessoalmente, adoro!) e o Museu do Vasa, que abriga um navio de guerra datado de 1628, que naufragou em sua viagem inaugural e ficou 333 anos no fundo do mar, mas que ainda está preservado.


Casa dos verões, no Arquipélago de Estocolmo

Na primeira parada da viagem, Isak leva Marianne para conhecer a casa onde passou os verões com sua família, até os 20 anos de idade. Quando a nora vai dar um mergulho, o idoso senta-se onde sua prima e antiga paixão, Sara (também interpretada por Bibi Andersson), colhia morangos silvestres e vê passar pelos seus olhos imagens daquela época.


As cenas da casa de verão foram feitas na ilha de Ängsö, no Arquipélago de Estocolmo, local cercado por ilhotas, lagos, lagoas e ocupado pelo belo Parque Nacional de Ängsö.


Ilha de Gotland

A viagem de Isak seria, teoricamente, uma rota, em linha quase reta, entre Estocolmo, no Nordeste, e Lund, ao Sul, por dentro do país. Na prática, no entanto, Bergman quis mostrar as belezas de sua terra e filmou algumas cenas em estradas de Gotland, a maior ilha da Suécia, localizada no Mar Báltico, na parte sudeste do país.


Almoço no Gyllene Uttern, em Gränna

Um dos pontos altos de "Morangos Silvestres: a cena do almoço descontraído no Gyllene Uttern.
Um dos pontos altos da viagem: um almoço descontraído no Gyllene Uttern (Divulgação).

Quando Isak e seu grupo param para almoçar, com direito a café com vinho do Porto, o idoso relaxa e conta histórias divertidas sobre os anos em que foi médico em Lund. Depois, nostálgico, o médico recita um poema em que é acompanhado por Marianne e Viktor.


Onde está o amigo que procuro em toda parte? O amanhecer é a hora da solidão e do carinho. Quando o dia se vai ainda não o encontrei. Um fogo invade meu coração. Sinto sua presença. Vejo sua glória poderosa onde nascem as flores...

Intitulado "Onde está o amigo" ("Var är den vän"), este poema foi escrito em 1819, pelo poeta e religioso sueco Johan Olof Wallin.


O restaurante-bistrô onde o quinteto almoça — com uma vista maravilhosa para o imenso Lago Vättern — é o Gyllene Uttern. Ele fica dentro do hotel Golden Utter, uma hospedagem aberta em 1933 e localizada nas encostas de Ravelsmark, na cidade de Gränna, há cerca de 3 horas de Estocolmo (Anote: Gyllene Uttern, 1).


Homenagem em Lund

Quando chegam na histórica cidade de Lund, o quinteto vai para a casa de Evald e Marianne, para o professor se arrumar para a cerimônia. Depois, vemos o Dr. Isak saindo do prédio principal da Universidade de Lund (a segunda mais antiga da Suécia, fundada em 19 de dezembro de 1666) e fazendo o trajeto até a catedral da cidade, onde será condecorado.


Detalhe: No filme, só vemos o exterior da medieval Catedral Luterana de Lund (inaugurada em 1145 e localizada no número 6 da Kyrkogatan). As cenas em seu interior foram filmadas nos estúdios Filmstaden.


Gamla Filmstaden Studios, em Råsunda

As cenas de interiores (como as das casas de Isak, sua mãe e de Evald e a do cerimonial) e algumas que parecem ter sido feitas em exteriores (como aquela em que Isak observa, em sonho, sua esposa o traindo) foram feitas em estúdios do Gamla Filmstaden, local onde Ingmar Bergman gravou cenas de quase todos os seus filmes anteriores e posteriores a Morangos Silvestres.


Notícia boa para nós, cinéfilos-viajantes: este estúdio oferece tours guiados (em inglês e em sueco, claro!).


Anote: Råsundavägen 150, Råsunda. No site do estúdio tem informações sobre como chegar lá.


Curiosidade:

Fã confesso de Ingmar Bergman, desde que assistiu Mônika e o Desejo (1952), o diretor Woody Allen roteirizou e dirigiu um filme inspirado em Morangos Silvestres. Ele foi intitulado A Outra (Another Woman, 1988), teve Gena Rowlands, Mia Farrow e Gene Hackman como personagens principais, e é, na minha opinião, o melhor drama da carreira do cineasta nova-iorquino.


Dê uma olhada no mapa da viagem de Morangos Silvestres:



Leia também (em inglês):


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