O diário de um mago
- Fran Mateus

- 13 de mai.
- 9 min de leitura
Atualizado: há 2 dias
Resumo do livro
No verão europeu de 1986, Paulo Coelho, jornalista, compositor e escritor carioca, com 38 anos de idade precisou peregrinar pelo Caminho das Pessoas Comuns, conhecido como o Estranho Caminho de Santiago, para encontrar sua almejada espada, símbolo de sua ordenação como Mestre da Ordem Católica RAM como o alcance da sua iluminação.
No início daquele ano, Paulo teve a chance de receber a sua espada quando estava no Brasil, mas uma atitude sua fez com que o seu Mestre espiritual entendesse que ele ainda não estava preparado para aquilo.
Não por acaso, o homem teve que percorrer a Rota Jacobea do Caminho de Santiago, também conhecida como o Caminho das Espadas, onde passaria por provas físicas e espirituais, realizaria as Práticas de RAM (Rigor - Amor - Misericórdia) e, mais importante, deveria descobrir o que iria fazer com a espada depois que a conseguisse. Como guia, ele teria a companhia e ajuda de Petrus (nome fictício).
No início, Paulo se questionou muito sobre o motivo de deixar sua vida no Brasil e estar ali, caminhando o dia inteiro, naquela convivência forçada com Petrus, tendo que obedecê-lo sem questionar, mesmo quando os exercícios e rituais pareciam sem fundamento ou até impiedosos.
Da sua parte, Petrus teve um papel fundamental como guia, ao estimular aquele homem a pensar sobre o que esperava obter, em termos práticos, quando finalmente atingisse o seu sonho. Quando concluiu a missão, o guia despediu-se do aprendiz para que este seguisse o Caminho sozinho e encontrasse tanto a resposta que precisava como a sua espada.
Foi um processo doloroso, mas Paulo conseguiu realizar o seu grande desejo pouco antes de finalizar o Caminho e chegou, de ônibus, à Santiago de Compostela.
No final, o mago descreveu a sua jornada assim:
“Foi um momento decisivo, quando parei de adiar meus planos e resolvi dedicar-me à única coisa que sonhava fazer na vida: escrever.”
Os seus primeiros livros, nessa nova fase, foram O diário de um mago (1987), que dedicou a Petrus, e O alquimista (1988), ambos transformados em sucessos globais.
A adaptação do livro para a TV:
Quarenta anos depois do lançamento, O Diário de Um Mago começou a ser filmado pela Netflix, com Johnny Massaro no papel de Paulo Coelho, e Rodrigo Santoro no de Petrus.
Pessoalmente, achei os dois atores muito bons para os papéis. No caso de Santoro, pareceu o match perfeito: um ator famoso, talentoso e muito discreto em sua vida pessoal no papel de um designer italiano com as mesmas características.
Detalhes da peregrinação pelo Caminho de Santiago

Saint-Jean-Pied-de-Port, França
Vestindo uma camiseta I L💗ve NY para driblar o calor europeu, Paulo chega de carro na pequena cidade francesa e vai até a casa de madame Lourdes, para ser informado sobre onde deve encontrar o homem que será seu guia pelo caminho, Petrus.
Quando chega ao local indicado, Paulo é recebido por um cigano e assaltante de estrada, que mexia na mochila do guia. Petrus, um homem de cerca de 40 anos de idade, cabelos grisalhos e pele queimada pelo sol (já posso reler o livro pensando nele como sendo Rodrigo Santoro ☺), consegue ler o nome de um dos demônios que Paulo irá encontrar no caminho, através da troca de olhares com aquele cigano.
Petrus esclarece a Paulo que o seu papel, naquela jornada, é ensinar-lhe as Práticas de RAM; a espada, Paulo iria encontrar sozinho:
“As práticas de RAM são tão simples que as pessoas como você, acostumadas a sofisticar demais a vida, muitas vezes não lhes dão nenhum valor… Quero explicar-lhe uma coisa. Eu não o estou guiando até a sua espada. Cabe única e exclusivamente e você encontrá-la. Estou aqui para conduzi-lo através do Caminho e ensinar-lhe as Práticas do RAM. Como você aplicará isso para encontrar a sua espada é problema seu.” (Petrus)
Ao final daquele dia, Petrus ensinou e Paulo realizou a primeira Prática de RAM: o ato de renascer através do Exercício da Semente.
Depois de seis dias de caminhada, subindo e descendo as montanhas dos Pirineus, Petrus ensinou a Segunda Prática de RAM: o Exercício da Velocidade.
Roncesvalles, Espanha
Os dois homens dormem numa taberna. Pela manhã, vão assistir a missa na Igreja Colegial, onde Paulo é apresentado a um grande bruxo: o padre Jordi.
— O que tem a ver a Magia com a Igreja Católica? (Paulo)
— Tudo. (Petrus)
Com o padre Jordi, Paulo descobre que a Rota Jacobea é o Caminho das Espadas. Com ela, existem mais três caminhos para o Poder: o Caminho de Jerusalém, que é o Caminho das Copas ou do Graal; o Caminho de Roma, o Caminho de Paus; e o Caminho dos Outros, cujo destino é secreto e não pode ser contado para ninguém.
Monte Alto del Perdón
Petrus ensina-lhe a terceira Prática de RAM: o Exercício da Crueldade, para ser feito sempre que Paulo for injusto ou cruel consigo mesmo.
Puente La Reina
Os peregrinos encontram dois meninos jogando bola. Petrus percebeu a força de um demônio pessoal de Paulo Coelho naquele local e deduziu que ele iria dar um aviso.
A bola, então, foi jogada e pega por Paulo. Um dos garotos tentou negociar com ele, que sentiu que tinha algo estranho naquelas palavras e na expressão do menino, levemente familiar.
Minutos depois do ocorrido, Petrus explicou que um mensageiro espiritual tentou seduzir Paulo de três maneiras clássicas — ameaça, promessa e fragilidade — sem sucesso, pois o mago conseguiu resistir às investidas.
Estella
Petrus ensinou a quarta Prática de RAM: o Ritual do Mensageiro no caminho até essa cidade. À noite, quando já estavam nela, Paulo realizou o exercício às margens do rio Ega. Aquele demônio era um anjo, uma força livre, rebelde, um mensageiro que Paulo deveria aceitar como amigo; ouvir seus conselhos, mas nunca deixar que ele ditasse as regras.
“Conversar com o Mensageiro não é ficar perguntando coisas sobre o mundo dos espíritos. O Mensageiro só lhe serve para uma coisa: ajudar no mundo material. E ele lhe dará essa ajuda se você souber exatamente o que deseja.” (Petrus)
Povoado não identificado
Petrus e Paulo param num povoado para beber num bar e descobrem que o lugar foi amaldiçoado porque seus habitantes mataram um cigano, queimado, acusando-o de bruxaria, e que o espírito do homem estava encarnado numa velha que mora no final da rua, isolada de todos.
Ali, Paulo tem seu primeiro enfrentamento visual com um demônio (esse, do mal) encarnado num cão e fala com ele numa língua diferente (o Dom das línguas, como aconteceu com os apóstolos no dia de Pentecostes). O animal vai embora, saindo da casa da mulher.
Paulo sente uma sensação de amor intensa pela velha senhora, mas também fica temporariamente fora de si, enjoado, com ânsia de vômito, com o choque da situação.
Ao chegarem num hotel, num outro local não identificado, mas cujo dono já esteve no Brasil e se hospedou num hotel da Praia de Ipanema, Petrus conta o que aconteceu para Paulo e pergunta-lhe se ele sabe o que está fazendo naquele caminho.
— Estou em busca da minha espada.
— E para que você quer a sua espada?
— Porque ela me trará o Poder e a Sabedoria da Tradição.
— Você está aqui em busca de uma recompensa. Ousa sonhar e está fazendo o possível para transformar esse sonho em realidade. Precisa saber melhor o que irá fazer com a sua espada, e isso tem que ficar claro antes que cheguemos até ela.
Petrus ensina a quinta Prática de RAM: o Exercício da Água, para despertar a intuição.
Logroño
Chegam aqui cinco dias depois do incidente com o cão. Na cidade, acontecerá o casamento da filha de um importante coronel local, na Paróquia de Santiago El Real, e festa na praça, com banquete regado a bebida e comida para todos. Petrus e Paulo aproveitam a boquinha.
Petrus dá uma aula sobre as três palavras gregas que designam o amor — Eros, Philos e Ágape — usando as pessoas presentes na praça para ilustrá-las. Bêbado de vinho, o guia é carregado até o hotel por Paulo.
Lugar próximo ao Pico de San Lorenzo, em Castela
Numa pequena construção, próxima do Pico de San Lorenzo, em Castela, Petrus ensinou o Ritual do Globo Azul, o exercício do Amor que Devora. Dessa vez, ele e Alfonso, um conhecido do guia que dormia naquele lugar, deram as mãos a Paulo e o acompanharam na realização do ritual.
Azofra
Paulo descobre que o cão o está seguindo e tem um novo enfrentamento visual com ele. Na medição de forças, o animal decide ir embora (mas não será por muito tempo).
Santo Domingo de la Calzada
Paulo faz o exercício do Enterrado Vivo (para mim, o mais agonizante de todos! Comparei, um pouco, as sensações de Paulo com as descritas por Ernest Hemingway, em seu conto As neves do Kilimanjaro).
Naquela noite, antes do exercício, Paulo queria que o seu corpo sentisse o conforto de uma boa cama do Parador Nacional. Mas, depois do exercício, relaxou e decidiu dormir ali mesmo, ao relento. Estava tranquilo e, melhor, vivo!
“Olhei e vi o rosto da minha Morte… amiga e companheira, que não ia mais me deixar ser covarde nem um dia de minha vida… Não ia mais permitir que eu deixasse para o futuro tudo aquilo que eu podia viver agora.”
Castrojeriz
Num bar deste lugar, Paulo reflete sobre a sua sinceridade naquela busca e questiona aquela viagem. Ainda está desapontado por ter abandonado tudo no Brasil para viver o que considerava uma experiência absurda. Até então, tudo parecia estar acontecendo ao contrário do que ele esperava.
A cachoeira em Leon
Alguns dias depois, em algum lugar do caminho de Leon, próximo de Astorga e Hospital de Órbigo, Petrus fala para Paulo fazer o Exercício da Cachoeira e colocar em prática tudo que tinha aprendido até aquele momento, demonstrar a sua força e aprender a ser Mestre.
“Tudo que você aprendeu, até agora, só tem sentido se aplicado a alguma coisa. No Caminho de Santiago, e na própria vida, a sabedoria só tem valor se puder ajudar o homem a vencer algum obstáculo.”
Petrus faz o exercício primeiro, para mostrar para o incrédulo Paulo, de que era possível subir aquele paredão de mais de 15 metros de altura e águas fortes e sair vivo e vitorioso da experiência, contanto, somente com as mãos e o seu pensamento estratégico.
Parlo decidiu que precisava vencer naquele dia e fez o exercício!
Depois da experiência prática, Petrus ensina Paulo a tirar energia de tudo que o cerca através do Sopro de RAM.
Ponte do Passo Honrado, na vila de Hospital de Órbigo
Lugar onde aconteceu a história de amor não correspondido e de batalhas de Don Suero de Quinñones, em 1434. Aquelas batalhas deram início à Ordem Militar de Santiago da Espada.
Foncebadón
Neste local, os peregrinos deixam uma pedra na Cruz de Ferro.
Petrus ensina a última Prática de RAM: O Exercício das Sombras para ajudar Paulo na sua tomada de decisões.
“A única maneira de tomar a decisão certa é sabendo qual é a decisão errada. É examinar o outro caminho, sem medo e sem morbidez, e, depois disso, decidir.” (Petrus)
Nas ruínas da cidade, Paulo tem seu último e doloroso encontro com o cão endemoniado.
Fere o joelho na batalha corporal. Ele e Petrus passam a noite numa pequena hospedagem para que o guia e uma idosa local possam tratar o ferimento com ervas medicinais.
Ponferrada
Mago e guia hospedam-se num hotel de luxo.
“Os homens que se julgam sábios são indecisos na hora de mandar e rebeldes na hora de servir. Acham uma vergonha dar ordens e uma desonra recebê-las. Jamais se comporte assim.” (Petrus)
À noite e durante a madrugada, os homens participam de um ritual no Castillo de Los Templários, um lugar cheio de lendas e sabedoria ancestral, que despertou em Paulo o fascínio pela sabedoria do oculto, que ele julgava adormecido.
Naquele local, Paulo vê Petrus pela última vez.
Villafranca del Bierzo
Paulo encara, sozinho, o Estranho Caminho de Santiago. Numa fonte, onde parou para descansar, uma menina pergunta se ele quer conhecer a Porta do Perdão. Ele aceita, pensando que poderia se tratar de um sinal de que sua espada estaria ali. Sem sucesso.
“Eu precisava resistir mais um pouco. Continuar buscando até o final sem ter medo de ser derrotado. Manter ainda a esperança de encontrar minha espada e decifrar seu segredo.”
Outro guia, chamado Angel, o leva até a Igreja de São José Operário. Novamente, Paulo não encontra sua espada ali.
O que o deixa curioso é que, em ambas situações, nem a menina e nem Angel aceitaram dinheiro pelo passeio.
À noite, se hospeda na casa de uma velha senhora, onde toma uma sopa e bebe vinho.
No caminho para a Galícia, descobre o segredo de sua espada, ou seja, o que deveria fazer com ela.
El Cebreiro
O mago avista o Pico de Cebreiro e, apesar do nevoeiro e da possibilidade de chuva, sente que precisa continuar a caminhada até ele, por dentro de uma floresta.
Chega ao pico, onde está uma cruz. Deseja rezar, mas não consegue dizer nada. Um cordeiro se coloca entre ele e a cruz. Finalmente, reza e chora de gratidão por estar ali, no caminho, e por tudo que aprendeu.
O cordeiro o guia até a capela da cidadezinha de Cebreiro. Nela, o Mestre o aguarda com a sua espada nas mãos. Os dois saem da capela, onde o Mestre reza um Salmos e o ordena Mestre da Ordem.
“Eu era digno da minha espada porque sabia o que fazer com ela.”
Santiago de Compostela
No dia seguinte, Paulo pega um ônibus em Pedrafita e, 4 horas depois, chega em Santiago de Compostela.
Nota: Vinte anos depois, Paulo voltou a percorrer o Caminho; dessa vez, de carro e já transformado num escritor famoso mundialmente.
Curiosidades do Caminho de Santiago:
O vinho parece ser a bebida, se não a oficial, pelo menos, a informal, do Caminho. Todo mundo bebe vinho naquele lugar.
O autor do primeiro guia da Rota Jacobea, o Guia do Peregrino (Codex Calixtinus), foi Aymeric Picaud, (Século XII), considerado o primeiro autor de um guia de viagem.
No ano de 1986, quando Paulo Coelho percorreu o Caminho de Santiago de Compostela, somente cerca de 400 pessoas fizeram o mesmo. Atualmente, são mais de 400.000 peregrinos anuais, sendo a Rota Jacobea a mais procurada por eles.
Confira:







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