A viagem de Bill Bryson de trem pela Austrália

Atualizado: 3 de out.

Em sua narrativa de viagem In a Sunburned Country, publicada no ano 2000, o escritor Bill Bryson — o mesmo de Uma Caminhada na Floresta — conta como foram as suas aventuras e desventuras pelo vasto país australiano, do norte ao sul e da costa leste à oeste, com paradas no meio do país.
Trata-se de um texto absurdamente divertido e bastante informativo, do tipo que vale a pena ler antes de viajar para o sexto maior país deste planeta.
Neste post, vou relatar a parte da viagem que Bill Bryson fez de trem pela Austrália, saindo de Sydney, em New South Wales (NSW), até Perth, na Austrália Ocidental, na primeira classe do Indian Pacific. Esta rota, por sinal, é considerada uma das mais longas do mundo, com 4.352 km de distância, perdendo, apenas, para as feitas através da Ferrovia Transiberiana, na Rússia (cuja rota mais curta leva mais de 7.600 km para ser percorrida).
Como foi a viagem de trem de Bill Bryson — de Costa a Costa — pela Austrália
O mês era janeiro e, tal como no Brasil, época das férias de verão. Bryson e seu companheiro de viagem, o fotógrafo inglês Trevor Ray Hart, viajavam para atender a um compromisso com a revista London Mail on Sunday (hoje, o site Daily Mail).
Central Station, Sydney, NSW
Escritor e fotógrafo embarcaram no Indian Pacific na bela, espaçosa e arejada estação central de Sydney, datada de 4 de agosto de 1906 (Uau! mais de 120 anos de existência!) e que se destaca no horizonte da cidade pela torre do seu relógio (Elizabeth Street).
No site transport.nsw, você encontrará um tour auto-guiado pelos principais pontos de interesse deste majestoso espaço.
Eu estive nesta estação em 11/2006, para ver um outro trem famoso: o The Ghan, que cobria a rota Sydney-Alice Springs (hoje, ele sai de Adelaide, no Sul, e segue até Darwin, no extremo Norte do país).
Parada em Broken Hill, NSW
Debaixo de 48º graus de temperatura, Bryson e Trevor descem em Broken Hill, uma antiga cidade mineira, para visitarem White Cliffs, localizada a cerca de 255 km dali.
Em White Cliffs, uma pequena cidade de, apenas, 80 habitantes (hoje, ela tem cerca de 156), os homens subiram o morro local e o hotel construído debaixo da montanha para amenizar o calor, conversaram com moradores, apreciaram o belíssimo pôr do sol e terminaram a noite num pub.
Apesar do calor escaldante e da distância da civilização, o escritor reconheceu que o lugar tinha o seu encanto e curtiu o clima de descontração dos moradores. Mas, claro, sendo Bryson, ele não cogitou a possibilidade de morar num lugar tão remoto e onde a televisão só havia chegado em 1993:
Não sei quanto dinheiro você teria de me dar para me convencer a me estabelecer em White Cliffs — algo na casa dos zilhões baixos, suponho.
De volta a Broken Hill, onde pegariam o próximo Indian Pacific na manhã seguinte, Bryson e Trevor foram tomar uma cerveja no pub de um dos hoteis mais famosos do cinema por aquelas bandas: o Palace Hotel, local onde os personagens de Priscilla, A Rainha do Deserto (1994) também se hospedaram e tomaram uns drinques. O atendente do bar que os atendeu contou-lhe a história dos murais com paisagens românticas da Austrália, pelo qual o hotel ficou conhecido.
Bryson relata que, basicamente, o artista Gordon Wayne foi lá, pintou um mural diretamente na parede, pegou seu dinheiro com o proprietário, sumiu uma ou duas semanas e voltou de novo. Algumas vezes, ele desaparecia por meses. Desse jeito, de mural em mural e sem previsão de término da obra, ele concluiu o mural e sumiu, de uma vez por todas, de Broken Hill.
Parada em Nullarbor, Austrália Meridional
Depois de retornar ao trem e aproveitar, de muito bom grado, os confortos de um bom ar-condicionado e os agrados que a primeira classe oferecia, Bryson, Trevor e demais passageiros tiveram duas horas livres para aproveitarem o entorno da estação de trem Cook, localizada numa cidade, agora, fantasma, na desértica planície de Nullarbor.
Como Cook não oferecia muito para se ver ou fazer (segundo Bryson, ela fazia White Cliffs parecer acessível e urbana), o escritor e Trevor conseguiram uma permissão para entrar numa locomotiva que estava sendo levada para manutenção em Kalgoorlie, para que pudessem registrar a experiência e tirar fotos do caminho.
Ao atingirem Deakin, os dois homens embarcaram, novamente, no Indian Pacific. Dessa vez, do nível do chão, o que os fez quase que pularem dentro do trem, pois estavam no meio do nada e sem uma plataforma que os ajudassem neste processo.
Eles entraram pelo carro da Coach Class, a mais barata e sofrida de todas (considerando a longa distância percorrida pelo trem e onde as regalias da First Class e da Holiday Class eram inexistentes). Bryson narra que a forma como os passageiros olharam para ele e Trevor foi assustadora e que os dois talvez tivessem sido comidos vivos se o gerente do trem não estivesse com eles.
Nunca me senti tão observado em toda a minha vida. Enquanto seguíamos David pelos dois vagões, 124 pares de olhos encovados acompanhavam, com ar sombrio, cada um dos nossos movimentos... Tenho quase certeza de que, se não tivéssemos o chefe do trem como escolta, eles teriam nos devorado.
Sobre a planície de Nullarbor, ela é conhecida pela sua extensa base de calcário, estimada entre 200.000 e 270.000 km (a maior do mundo!), e onde é quase impossível ver uma árvore (aliás, em determinados momentos da viagem, Bryson ficou impressionado de ver que alguns animais e plantas conseguem sobreviver num lugar tão inóspito). Por essa planície passa a Rodovia Eyre, a principal estrada pavimentada, que é explorada pelos viajantes que fazem o mesmo percurso de Costa a Costa, só que de carro e moto, principalmente.
A chegada em Perth, Austrália Ocidental
Ao desembarcar na litorânea Perth, a capital e principal cidade australiana da Costa Oeste, Bryson se sentiu aliviado de poder estar de volta em terra firme. Ele comenta que sentia um prazer imenso (e, talvez, exagerado) em saber que conseguiu fazer o que muitos australianos nunca tentaram: atravessar a Austrália de um lado até o outro do país.
Confira o mapa com a rota de viagem de Bill Bryson: de Sydney a Perth; e de lá até Shark Bay:
A viagem de carro para Shark Bay
Dali, ele dirigiu pela solitária rodovia litorânea que o levou a Shark Bay, para ver a comunidade de estromatólitos vivos existentes naquela parte do país. Nas palavras dele:
Colônias de formações semelhantes a líquens que, silenciosa mas perfeitamente, replicam as condições que existiam na Terra quando a vida estava em seus primórdios.
Depois de uma boa pesquisa no Google, você descobre que esses seres são estruturas rochosas em camadas formadas por bactérias que crescem em águas rasas e criam um biofilme pegajoso — micro-organismos fotossintetizantes chamados de cianobactérias (aka, algas).
Creio que Bryson foi ver esse ecossistema não só por curiosidade turística, mas para escrever sobre eles em seu livro A breve história de quase tudo (Companhia das Letras), em que ele apresenta suas descobertas sobre o surgimento da Terra e sobre tudo que existe ou habita nela; descobertas essas que foram feitas tanto através dos estudos de pesquisadores do passado como por suas próprias pesquisas in loco, incluindo a Austrália (uma leitura muito boa, por sinal!).
Se você assistiu o filme Trilhas (2013), foi neste mesmo local onde a escritora australiana Robyn Davidson terminou a sua longa viagem, à pé, pelo deserto.
O Indian Pacific da viagem de Bryson e de hoje

Na época de Bryson, a viagem levava 3 dias seguidos, com o trem saindo da Central Station, em Sydney, passando pelas Blue Mountains, parando em Broken Hill (para entrada e saída de passageiros) e Nullarbor (para manutenção das locomotivas) e seguindo para Perth.
Ao longo do tempo, o percurso passou por algumas alterações, que incluiu a descontinuação da classe Coach (aquela que fez Bryson temer ser devorado vivo), em que os passageiros viajavam sentados em poltronas por 3 longos dias.
Agora, o Indian Pacific oferece serviços de turismo de luxo, que variam de acordo com a cabine selecionada: Gold Service, Gold Premium, Platinum Service e suítes de alto luxo. Informações sobre a viagem podem ser obtidas no site da companhia.
O percurso atual passou de 3 para 4 dias e é bem mais divertido em termos de experiências para o viajante. Ele continua saindo de Sydney, mas incluiu paradas (e até jantar) nos lugares mais interessantes do caminho para os passageiros aproveitarem a experiência no seu melhor. Obviamente, não é uma viagem barata, mas é uma daquelas que deve valer muito a pena ser feita, pelo menos, uma vez na vida.
Notas sobre o livro:
In a Sunburned Country (2000) foi publicado, nos Estados Unidos, pela Broadway Books, da Random House LLC (essa foi a versão que eu li).
No Reino Unido, o livro se chamou Down Under (2000) e foi publicado, originalmente, pela Doubleday. Hoje, você o encontrará sendo publicado pela Black Swan, da Transworld Publishers.
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